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Por que pensar de forma interseccional?

teoria interseccional

Foto: Reprodução Internet

Empoderamento, interseccionalidade, colorismo, racismo estrutural: conceitos que há poucos anos estavam restritos ao mundo acadêmico agora são difundidos em propagandas de TV

Nos últimos anos, alguns temas que eram debatidos no espaço acadêmico têm se tornado cada vez mais populares, e até sendo inseridos em comerciais e materiais publicitários de diversos tipos de empresas voltadas para o público feminino. Sem nenhuma dúvida o mais famoso é o empoderamento — tema que com certeza estará presente aqui. Porém, a interseccionalidade e o racismo estrutural também têm começado a conquistar sua fatia do “mercado”.

É interessante, no entanto, pensar que quanto mais esses termos se tornam populares, mais acabam se distanciando do que realmente são. A interseccionalidade surgiu no final da década de 1980 dentro do pensamento feminista. Kimberlé Crenshaw, uma das principais autoras do tema, definiu a interseccionalidade como o estudo da sobreposição ou intersecção de identidades sociais e sistemas relacionados de discriminação, dominação ou opressão.

Assim, a teoria interseccional sugere que para conseguirmos entender como a injustiça e a desigualdade social operam dentro da nossa sociedade é necessário analisar como diferentes categorias sociais, culturais e biológicas, como raça, classe, orientação sexual, religião, idade e outros eixos de identidade interagem de diferentes formas, muitas vezes ao mesmo tempo.

Isso quer dizer que as principais opressões que fazem parte da nossa sociedade, como o racismo, machismo, lgbtfobia e classismo não agem de maneira independente uma da outra, mas se inter-relacionam. O que faz com que se crie um sistema de opressão que reflete a transversalidade de diversas formas de discriminação.

Tudo bem, mas por que precisamos pensar de maneira interseccional?

Acredito que para um assunto como esse alguns exemplos podem ajudar na assimilação do conceito. O primeiro deles é como no Brasil, raça e classe se inter-relacionam. A última publicação do informativo “Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil”, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2019, mostra que apesar de 55,8% da população brasileira ser preta ou parda, apenas 27,7% dessa população faz parte dos 10% mais ricos do Brasil. Em contrapartida, pretos e pardos representam 75,2% dos 10% com os menores rendimentos no país.

Além disso, a renda média por pessoa mostra diferenças assustadoras quando analisamos a raça dessas pessoas. O informativo mostra que em 2018, enquanto a população branca teve um rendimento médio mensal de R$ 1 846, o rendimento da população preta ou parda foi de R$ 934. Ou seja, a população branca teve uma renda per capta quase duas vezes maior que a população preta ou parda.

O IBGE também revela que o número de pessoas pretas ou pardas com ganhos inferiores à linha da pobreza — US$ 5,50 por dia, definido pelo Banco Mundial — foi maior que o dobro do que foi verificado entre pessoas brancas: 32,9% e 15,4%. Ainda são apontados disparidades nos dados relativos a pessoas que vivem em domicílios que não possuem acesso a serviços de saneamento e acesso a Internet.

No entanto, o que esses dados nos mostram é que uma análise racial que não leva em consideração a classe, e uma análise de classe que não produz um “recorte” de raça, não permite uma análise total do problema. Assim, a pobreza no Brasil tem cor, e é negra.

O segundo exemplo é sobre como a violência de gênero possui fortes marcadores raciais no Brasil. O Atlas da Violência 2020, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) com a colaboração do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), mostra que em 2018 uma mulher foi assassinada a cada duas horas no Brasil, um total de 4.519 vítimas. Em comparação ao ano de 2017, o número de feminicídios apresentou uma redução de 8,4%. No entanto, comparando com o cenário da última década (2008 a 2018), o que se verifica é que essa redução aconteceu apenas no homicídio de mulheres não negras.

Os dados ainda revelam que entre 2017 e 2018 ocorreu uma queda de 12,3% nos homicídios de mulheres não negras. Entre as mulheres negras essa redução foi de 7,2%. Contudo, como já dito, ao analisar o período de 2008 a 2018, o que se mostra é um cenário muito diferente para mulheres não negras e negras. Ao mesmo tempo que a taxa de homicídios de mulheres não negras caiu 11,7%, a taxa entre as mulheres negras aumentou 12,4%. No Brasil, em 2018, 68% das mulheres assassinadas eram negras.

O que os dois exemplos nos mostram é que ao realizarmos pesquisas ou analisarmos dados sobre as opressões que fazem parte da nossa sociedade, pensar nos fatores que constituem a profunda desigualdade social em que vivemos é indispensável. Pois, apenas assim, poderemos construir uma visão real sobre nossos problemas e pensarmos em maneiras efetivas para tentarmos resolvê-los.

Por Luiza Rodrigues
@luizadpr

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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