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Autodefinição como forma de resistência

Autodefinição

Foto: Pixabay

Como para Patrícia Hill Collins a autodefinição, um dos quatro aspectos da consciência, pode ser uma forma de resistência a objetificação das imagens de controle

Em meu último texto falei sobre as imagens de controle, conceito importante na obra de Patrícia Hill Collins, e como elas são capazes de moldar a identidade de todo um grupo de pessoas, as mulheres negras. No entanto, é importante lembrar que nenhuma dessas imagens e estereótipos que são usados como forma de objetificação e controle surgiram há pouco tempo, funcionando como uma forma histórica de opressão.

Quando penso em todas as imagens de controle que me cercam e na facilidade com que as pessoas a absorvem como parte inerente da minha identidade, me questiono como realmente construir o meu “eu” longe do que parece ser naturalmente imposto. Nesse sentido, a dupla consciência apontada por Collins muitas vezes apareceu no meu dia a dia.

Para a autora, é a partir dessa vigilância e da necessidade de sobrevivência que a dupla consciência surge. Estamos familiarizadas com todas as imagens de controle e os diversos estereótipos reservados a nós e muitas vezes usamos essa linguagem para nos protegermos – mesmo que apenas de forma ilusória. Porém, em espaços seguros ou até mesmo apenas para nós mesmas, reservamos nosso ponto de vista autodefinido sobre todas as facetas complexas que constituem a identidade de uma pessoa.

Mas como chegar, mesmo que apenas em espaços seguros ou para nós mesmas, em um ponto de vista autodefinido sobre o que se é? Nesse sentido, Collins fala sobre a importância do trabalho de autodefinição, um dos quatro aspectos da consciência. Que além da autodefinição também conta com a autovalorização e respeito próprio, a necessidade da autossuficiência e independência, e a transformação do “eu” como forma de empoderamento individual.

Autodefinição e a busca pela própria voz

Um aspecto importante dentro da autodefinição está na busca pela própria voz. Collins mostra como diversas escritoras, cantoras e compositoras trabalham o “eu” em suas obras como forma de expressar individualmente suas vozes. E também como historicamente as mulheres negras são retratadas como francas ou incisivas demais na hora de se expressar.

Mas encontrar a própria voz não é uma tarefa fácil, pois exige que estejamos alertas às contradições que encontramos no nosso dia a dia. Assim, a construção da nossa voz e do nosso “eu” passa por uma série de negociações sobre o que nós realmente somos internamente e da objetificação imposta ao sermos tratadas como “o outro”.

Essa constante negociação vem do fato, como argumenta Audre Lorde, que o grupo mulher negra está em constante visibilidade, e por isso sujeitas a uma profunda objetificação, ao mesmo tempo que o indivíduo mulher negra está em constante invisibilização, resultado da mesma objetificação que nos torna invisível enquanto ser humano único.

Dessa forma, a construção da própria voz exige que saiamos desse lugar construído para nós, rompendo com essas contradições. O que requer de cada uma de nós uma grande força interior. Assim, precisamos nos lançar para fora desses espaços de objetificação e das imagens de controle construídas para nós, criando um enquadramento próprio, que substituiu essas imagens por um conhecimento autodefinido.

Outro ponto interessante é mostrado pela poeta Nikki Giovani que aponta que as mulheres negras são o único grupo que mesmo que de forma inconsciente extrai toda a sua personalidade de si mesmo. Por este motivo, não podemos nos dar ao luxo de perder isso, construindo um conhecimento autodefinido sobre nós e criando formas de exercitar nossa voz.

Espaços seguros: onde exercitar a própria voz

Construir uma voz autêntica além da força interior também requer espaços onde verdadeiramente podemos exercitá-la. Esses espaços seguros muitas vezes são constituídos por nossas famílias, comunidade e na troca constante com outras mulheres negras.

Porém, encontrar ou construir esses espaços pode não ser a missão mais fácil, principalmente no meio de uma pandemia. No meu caso, por exemplo, considero particularmente difícil manter ou criar vínculos de maneira completamente virtual. O que pode dificultar todo esse processo.

Mas assim como apontado por Collins, os espaços seguros e todas as relações – mesmo que algumas não sejam tão íntimas – com outras mulheres negras, como minha mãe ou com a Izabella, uma das minhas melhores amigas, foram extremamente significativas para a construção do meu “eu”, me trazendo novas perspectivas, ideias e referências sobre o que sou e o que posso ser.

Assim, a construção do “eu” e a autodefinição em um mundo repleto de estereótipos e imagens de controle que são constantemente atualizadas exige que tracemos uma série de estratégias de resistência complexas que precisam se adaptar a cada novo espaço de dominação.

Além disso, é importante destacar que para Collins a formação de uma identidade mais ampla do que a imposta pela sociedade é apenas o primeiro passo da autodefinição. E apostar na autodefinição como forma de resistência nos permite questionar não apenas essas imagens mas também a intenção e a credibilidade das pessoas que possuem poder para defini-las.

Por Luiza Rodrigues
@luizadpr

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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