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Controle em Movimento

Patricia Hill Collins | Foto: Samfunnsforskning/Eirin Nilsen

Um dos conceitos mais importantes do pensamento feminista negro de Patricia Hill Collins, as imagens de controle revelam a objetificação sofrida pelas mulheres negras em diferentes momentos da sociedade

Aproveitei o final de 2020 para comprar alguns livros que queria ler ao longo de 2021. Alguns já estavam na minha lista há anos, outros acabei comprando porque surgiram como recomendados no meu carrinho. Entre eles estava o livro da Winnie Bueno, “Imagens de Controle: um conceito do pensamento de Patricia Hill Collins”, que acabou sendo o primeiro que li.

Logo na apresentação fala-se sobre como as obras de Collins demoraram para começarem a ser traduzidas para o português, mesmo ela sendo responsável por importantes contribuições ao pensamento feminista negro. Nesta época, havia pouco mais de um ano do lançamento do livro “Pensamento negro feminista” de Collins no Brasil. Decidi que seria o livro que leria em seguida.

Um dos principais conceitos trabalhados por Collins são as imagens de controle, que mostram como mulheres negras foram objetificadas ao longo da história. Essas imagens foram usadas como forma de responsabilizá-las pelo cenário social que estavam inseridas e até mesmo o cenário que o país se encontrava. Além disso, também foram usadas para justificar diferentes formas de violência contra essas mulheres e serviram como ponto de partida para novas imagens e formas de opressão.

Uma das coisas que logo percebi foi que a demora para a tradução da obra de Collins no Brasil não impediu que mulheres negras brasileiras sofressem diferentes formas de controle a partir das imagens construídas pelos grupos dominantes, nem que grandes feministas brasileiras pesquisassem sobre isso.

Lançado em 1984 por Lélia Gonzalez, o artigo “Racismo e sexismo na cultura brasileira” fala sobre a neurose cultural brasileira e faz a seguinte indagação: “Por que o negro é isso que a lógica da dominação tenta (e consegue muitas vezes, nós sabemos) domesticar?”. Entre outras diversas coisas, Lélia fala sobre como três diferentes atribuições são dadas a um mesmo sujeito: a mulher negra. Ela pode ser a mulata, a doméstica ou a mãe preta, tudo depende de onde ela é vista.

Em “Pensamento feminista negro”, Collins fala uma coisa que considero muito interessante: que um dos principais instrumentos de poder dos grupos dominantes é a autoridade de definir valores sociais. Assim, determinar quais são os aspectos morais e sociais a serem buscados e como cada pessoa deve seguí-lo para construir o cenário ideal da sociedade é uma forte ferramenta de dominação de um ou mais grupos de pessoas.

Lélia e Collins também falam sobre a naturalidade dada ao lugar que essas pessoas se encontram. É como se elas estivessem ali por um motivo óbvio e claro e, na maioria das vezes, por sua própria culpa. Pelos valores que carregam, pelo o que são.

Mas como os valores corretos foram determinados? Para Collins, o pensamento binário – que está fortemente entranhado em nossa sociedade – explica algumas coisas sobre isso. O pensamento binário é responsável pela compreensão da diferença humana. Nele uma coisa não pode ser simplesmente diferente da outra, ela é completamente oposta. É o “outro”. Porém, ao criar esse tipo de tensão é inevitável a ideia de superioridade e inferioridade nos pares constituídos nesse tipo de oposição, como: homem e mulher, branco e negro, bem e mal, razão e emoção, etc.

E aqui Lélia e Collins novamente se encontram. Ambas falam sobre como ao objetificar um uma pessoa (ou um grupo de pessoas), tiramos dele a subjetividade humana. E é isso que o pensamento binário faz. Não cabe a um objeto construir sua realidade ou identidade, isso fica por conta do membro dominante do par, que passa a ver o outro como um objeto a ser manipulado e controlado.

E é aqui que as imagens de controle definidas por Collins se constituem.

O dinamismo das imagens de controle e sua importância para os grupos dominantes

A escravidão foi um momento onde diferentes imagens de controle foram construídas. Collins aponta que a mulher negra procriadora foi uma delas. A mulher negra escravizada era vista como uma mulher que possuía uma capacidade de fecundidade maior que mulheres brancas. Essa imagem era usada como justificativa para o controle de fecundidade, fazendo com que engravidassem cada vez mais. Já que quanto mais crianças escravizadas nascessem, mais propriedade de trabalho os proprietários de escravos teriam.

Outra imagem de controle amplamente utilizada durante a escravidão – e posteriormente “reformulada” – foi a da Jezebel, que se relacionava com a mulher negra procriadora. Para justificar os frequentes ataques sexuais de homens brancos foi criada a ideia de que as mulheres negras escravizadas possuíam um apetite sexual excessivo, e por consequência uma fecundidade maior.

É importante ressaltar que a exploração econômica é uma das bases das imagens de controle. As mammys – provavelmente uma das maiores imagens de controle – não tinham direito de se dedicar a seus filhos, assim como as mulheres negras procriadoras. A mammy é a serviçal obediente. A imagem perfeita da subordinação feliz, que entende o valor social do trabalho realizado para a família branca e repassa para seus descendentes os mesmos princípios.

Porém, Collins mostra que as imagens de controle não atingem apenas as mulheres negras. Em contraponto à mammy, a imagem da matriarca trazia uma mulher negra que era agressiva, não era feminina e se preocupava tanto com o trabalho que era capaz de negligenciar a criação dos seus filhos e “castrar” seus companheiros. A matriarca era usada como imagem de uma mammy fracassada e também atingia as mulheres brancas trabalhadoras, que deveriam usar como exemplo tudo que poderia dar errado em sua família caso não se dedicassem corretamente a imagem certa.

Após a Segunda Guerra Mundial, mulheres negras lutaram para ter acesso a direitos que já eram concedidos a outros cidadãos estadunidenses. Assim, a população negra americana conquistou proteções básicas de um Estado de bem-estar social, como: previdência social, seguro-desemprego, bolsas e empréstimos para educação superior, ações afirmativas e leis de combate à discriminação.

É nesse cenário que outra imagem de controle surge: a da mãe dependente do Estado. Ela representa outra imagem da mammy fracassada, que foge do trabalho por estar acomodada com os auxílios que recebe do governo. E como Collins aponta, ajudou a construir o estereótipo de que pessoas afro-americanas são preguiçosas e fogem do trabalho. Porém, a mãe dependente do Estado, assim como a matriarca, é uma mãe ruim. São retratadas como mães solteiras que ferem uma das maiores regras da ideologia branca masculina por não possuirem o verdadeiro valor e segurança financeira que apenas um casamento heterossexual pode oferecer.

A mãe dependente do Estado também foi vista como causadora da própria pobreza e da pobreza que a comunidade afro-americana estava inserida e ajudou a desenvolver outra imagem de controle: a da rainha da assistência social. Com o governo Reagan, cortes significativos foram promovidos nos programas de bem-estar social do Estado e as mulheres negras eram cada vez mais culpabilizadas pela situação econômica que os Estados Unidos se encontravam.

A imagem difundida era de que as rainhas da assistência social eram casadas com o Estado, extremamente materialistas e se aproveitavam do auxílio financeiro que o governo proporcionava através do trabalho duro dos trabalhadores.

No entanto, não apenas as mulheres negras da classe trabalhadora eram estereotipadas. Na mesma época que a rainha da assistência social surgiu a imagem da dama negra. Ela era o retrato da mulher que prosperou: estudou, trabalhou muito e conseguiu chegar longe. Por mais que parecesse positiva, essa imagem se relaciona com a mammy à medida que precisavam trabalhar muito mais para alcançar a posição que estavam; e com as matriarcas, à medida que eram exigentes demais e não tinham tempo para homens.

Além disso, essas mulheres negras tinham que lidar constantemente com o estigma de só estarem ali por conta de ações afirmativas e que ocupavam lugares que pessoas brancas mereciam. E isso não dependia do alto rendimento ou qualificação dessas mulheres negras, independente do que fizessem, sua posição sempre seria questionada.

Collins destaca que um dos temas centrais do pensamento negro feminista é desafiar essas imagens e que as mulheres negras vem resistindo a cada uma delas ao longo da história. Porém, cada vez mais imagens negativas são criadas como forma de punição a essa resistência.

Colunista: Luiza Rodrigues
@luizadpr

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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