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Querido Frei Cláudio – Artesão de palavra e fé

  • por em 21 de novembro de 2021

Foto: Edesio Ferreira/EM/D.A Press

Combati o bom combate,
terminei a corrida, guardei a fé.
(2 Timóteo 4, 7)


Você dizia de várias maneiras, Frei Cláudio, que a familiaridade com Deus se faz com paz no coração e, sobretudo, com vivência de solidariedade com os irmãos. Mas mais do que semear a Palavra, você foi um artesão da Palavra. Foi assim que ela se fez revelação, diálogo e abraço.

Você soube ter no questionamento um caminho para superar o moralismo e o dogmatismo e, assim, abrir espaços para o dinamismo da vida, Você sabia que no exercício do amor e da liberdade está a mística, capaz de valorizar o profano no sagrado e o sagrado no profano.

Os anos de vida, guardados com jovialidade, viço e força marcaram seu modo de ser brasileiro e holandês (mais mineiro, “uai”!). Uma pessoa de princípios – corajoso e bom, honesto e decidido, poeta e intelectual (viver sem princípios é adoecer). A luta emoldurada pela justiça, liberdade, solidariedade marcou sua vida, Assim, conseguiu pessoal e comunitariamente descobrir a clássica primazia da consciência – viver é conviver e dividir o mundo com o Outro.

A obra de Frei Cláudio não foi somente seu trabalho. Foi o resultado de seu posicionamento na vida. Seus atos, falas e movimentos compõem sua caminhada na Igreja do Carmo (50 anos). Da pequena aldeia de Wijtgaard, no município de Leeuwarden, na Holanda, veio morar em Belo Horizonte.

Seu trabalho religioso, gerador de muita satisfação, mas também de incompreensões e desentendimentos, foi uma atividade central em sua vida. A ele se juntaram outras vozes e saberes que transformaram a Igreja do Carmo em uma paróquia viva, sinodal e fraterna. Seguiu o caminho do Concílio Vaticano II e do projeto de uma Igreja Povo de Deus.

Acreditou na maioridade do leigo, por isso, o significado de autoridade ultrapassou a relação autoritária na Igreja e pontuou respeito com autonomia. Com isso, o diálogo foi um denominador comum nas pastorais (O fundamento da autoridade é o respeito mútuo). Em 2013, na comemoração dos 80 anos, organizamos um livro sobre sua história de vida – Artesão de fé: Frei Cláudio van Balen. Org. Mauro Passos e Cláudio Bueno Guerra. Belo Horizonte: 31 editora. Cláudio van Balen fez estrada no canteiro da solidariedade.

No período da ditadura militar, por exemplo, acolheu no Convento do Carmo estudantes e pessoas procuradas pelo regime político. Em vez de decifrar atos, deu-lhes maior intensidade; de congelar a criatividade, cultivou-a com a leveza dos poetas; em vez de aprisionar a religião, permitiu-lhe a liberdade; em vez de despersonalizar a Deus, deu-lhe o rosto que Ele mesmo escolheu. Nesse caminho, se fundamenta a experiência religiosa, como lembra o Evangelho – “Onde estiver o teu tesouro, aí também estará o teu coração” (Mateus 6, 21).

A obra de Frei Cláudio ultrapassou o Decálogos da tradição judaica e fez morada nas Bem-aventuranças de Jesus de Nazaré. O seu carisma profético e místico teve uma palavra-chave: justiça. Foi cristão de uma maneira concreta, fora dos tropos padronizados e hierarquizados da instituição religiosa. Com ele, a palavra ganhou forma em poemas, e
vida em liberdade. A vida cristã não é um acumulado do ontem. É uma voz que nos chama de diferentes maneiras para crer na justiça e na esperança. As utopias podem voltar porque fazem parte da condição humana. Com Adélia Prado, podemos dizer neste momento da Páscoa de Frei Cláudio: “O sonho encheu a noite/ Extravasou pro meu dia /Encheu minha vida/ E é dele que eu vou viver/ Porque sonho não morre”.

Há que se aprender uma linguagem diferente para falar de gratidão e sentimento e, assim, registrar os gestos de amizade. São muitas paisagens que compõem minha convivência de aluno, amigo e companheiro de luta com o Frei Cláudio. É uma sucessão de encontros e começos que ecoa nos trabalhos, reuniões, textos e livros. Como bom mineiro, concluo está laudativo encostando-me em Guimarães Rosa: “O passado é que veio até mim, como nuvem, vem para ser reconhecido”.

Isto é travessia, Frei Cláudio –, encadear fé, poesia e coragem.


Prof. Mauro Passos
Presidente do Centro de Estudos de História da Igreja/do Cristianismo na América Latina
(CEHILA- Brasil)

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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Marcel Lima

Ser humano ímpar. Esse é Frei Cláudio.
Brilhante em suas posições (muitas das vezes incômodas para os governantes – o que o levou a ser escanteado posteriormente). Identifico-me muito com esse lado dele de não ser conformista, de querer de fato mudar, ainda que venha a se indispor com alguém.
Esteja em paz, grande exemplo. Fique em paz.