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Kamala encarnação da diversidade

Kamala Harris

Kamala Harris | Foto: Elijah Nouvelage/File | Reuters

Kamala Harris é a primeira mulher a ocupar a posição de Vice-Presidente da história dos Estados Unidos da América. Algo mais precisa ser dito sobre esta potência humana, merecedora de todo o reconhecimento e aplauso? Nascida na Califórnia, ela é frequentadora da Igreja Batista, advogada extremamente bem-sucedida, com um patrimônio de cifras milionárias e desde muito jovem envolvida com política. Teve acesso a uma excelente formação escolar nos EUA e concluiu o ensino básico no Canadá, onde viveu com a mãe em Quebec. Kamala cursou duas graduações: uma em Artes, na Universidade de Howard (Washington), onde iniciou sua militância política, representando a turma de calouros no Conselho Estudantil e integrando a irmandade Alpha Kappa, instituição fundada em 1908 com o objetivo de defender direitos de universitárias afrodescendentes; a outra foi em Direito, na Universidade da Califórnia. Seguiu uma carreira plena de êxitos, tendo sido a primeira mulher Procuradora-Geral do Estado da Califórnia, a segunda mulher negra a ocupar o cargo de Senadora e a primeira Vice-Presidente de origem indiana e afro-americana dos Estados Unidos.

Com um currículo de feitos profissionais e atividade política nada trivial, Kamala orgulha mulheres do mundo inteiro, especialmente as de ascendência multirracial. Em seu discurso na cerimônia dos 20 anos dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, ela destacou o respeito à diversidade como sustentáculo do governo estadunidense numa fala serena e com um carisma só dela. Assistindo ao seu discurso pela transmissão ao vivo na GloboNews chamou especialmente minha atenção um comentário da correspondente da Globo em Nova York, Sandra Coutinho, que introduziu sua manifestação dizendo: “Kamala de boca fechada já encarna a diversidade”.

A frase de Sandra me provocou algumas indagações: o que uma brasileira considera diversidade face a uma Vice-Presidente americana? O que uma correspondente brasileira loira que vive em Nova York considera diversidade ao atribuir a encarnação desta à Kamala, antes mesmo que ela abra a boca para dizer algo? Pareceu-me que a jornalista se referia especificamente ao estereótipo e às origens de Kamala: a primeira Vice-Presidente dos EUA negra, filha de uma indiana e de um jamaicano; portanto, um perfil totalmente exorbitante ao padrão americano e europeu dos que ocupam cargos de destacado poder. A cor da pele, o cabelo, a origem familiar de Kamala parecem mesmo invocar a encarnação da diversidade. Mas de que tipo de diversidade estamos falando?

Kamala é filha de uma indiana médica que emigrou da Índia para fazer doutorado em Endocrinologia na Universidade de Berkeley nos EUA e posteriormente se mudou para o Canadá para ocupar um cargo importante em pesquisas no Hospital Geral Judeu e lecionar na Universidade McGill em Montreal. O avô materno de Kamala fora um destacado diplomata, que, além de ter sido Secretário Adjunto do Ministério do Trabalho indiano, sempre atuou como articulista em prol dos direitos de refugiados na Índia e na África, ocupando importantes cargos governamentais. Tal como a mãe de Kamala, seus tios tiveram excelente formação acadêmica na Índia e nos Estados Unidos. O pai de Kamala é um acadêmico jamaicano que estudou Economia na famosa Universidade de Berkeley, tendo se tornado professor emérito da Universidade de Stanford, e sua família (os Harris) tem um histórico de êxitos em empreendimentos comerciais na Jamaica. Esta síntese das origens de Kamala nos permite traçar, ainda que superficialmente, um panorama básico das condições sob as quais a moça viveu e teve sua formação. O perfil dos ascendentes de Kamala nos remete a qual diversidade?

Se afastarmos a imagem de Kamala das nossas mentes e levarmos em consideração as informações aqui trazidas sobre sua origem, nosso imaginário brasileiro apontaria a Vice-Presidente como uma encarnação da diversidade? Sem dúvida suas origens familiares são diversas de uma família tipicamente originária dos EUA, mas quando pensamos em diversidade social e étnica, qual pesa mais na definição de alguém como diverso e face a quem? O fato de ter etnias diversas em sua família de origem pesa na afirmação de que ela encarna a diversidade ainda que saibamos das condições socioculturais dos seus familiares? A cor da pele e os traços fenotípicos (características observáveis) de Kamala são suficientes para definir sua diversidade? Diversidade diz respeito a variedade, a multiplicidade e a palavra vem sendo empregada preferencialmente no sentido de diversidade cultural, apontando para a inclusão de origens e comportamentos diversos numa mesma organização social. É, sem dúvida, o valor mais destacado deste início de século, objeto de indagações e pesquisas nas várias ciências humanas.

A primeira questão que me coloco quando vejo referências midiáticas à encarnação perfeita da diversidade por Kamala Harris desde que ela foi cogitada a ser a candidata à Presidência dos EUA e posteriormente convidada por Joe Biden para integrar a chapa do Partido Democrata é: afinal, que diversidade encarnada é essa? Sabemos que a escolha de Kamala foi extremamente influenciada pelos movimentos antirracistas contra a violência policial que integraram o Black Lives Matter, e cujo estopim foi o caso de George Floyd, morto durante uma abordagem policial. Era fundamental ter uma mulher negra na chapa, resgatando também algo do simbólico governo Obama. Sob o ponto de vista de estratagema político, a composição Biden/Kamala foi certeira, o que ficou comprovado pela vitória contra Trump, mas discutir diversidade não se restringe ao apelo político eficaz que a invoca. Independentemente da cor de sua pele e de sua ascendência, Kamala integra o rol de pessoas ditas “bem-nascidas”, descendentes de famílias bem-sucedidas, seja na Jamaica, na Índia, nos EUA, no Brasil. A cor da pele nesse “pacote de vida” representa o quê?

A jornalista brasileira que mencionou a diversidade encarnada por Kamala talvez não tenha a ascendência multiétnica que a dela, mas também representa um grupo peculiarmente diverso de pessoas: de mulheres bem-sucedidas profissionalmente e que também vivem nos EUA; no caso de Sandra, como correspondente da maior potência midiática da América Latina: a Rede Globo de Televisão. Provavelmente não vemos em Sandra Coutinho a encarnação da diversidade, com sua pele branca, seus cabelos loiros e seus olhos verdes. Será que ela não se sente a encarnação da diversidade? Viver nos EUA nas circunstâncias em que vive pode soar, na perspectiva de um brasileiro, algo elitizado demais, já que vive num bairro luxuoso em Nova York, fruindo de um excelente salário mensal. Mas talvez Sandra se sinta parte de uma diversidade latino-americana que sai em busca de oportunidades profissionais em outro país, sofrendo preconceitos vários por estar ocupando um espaço que não devia segundo o olhar dos nativos. Talvez quando está no Brasil Sandra se sinta parte de uma elite profissional, que independentemente de suas características físicas, alçou, por mérito, uma diferenciada carreira no exterior. Seria legítimo Sandra se afirmar a encarnação da diversidade?

Brasileiras de famílias pobres que se tornam referência em suas profissões, seja em seu país, seja em qualquer outro, não são encarnação da diversidade diante do padrão “eleito” como o das pessoas que “podem” ser referência? Penso que devemos refletir sem demagogia e rapapés sobre o fato de que chegar à Vice-Presidência de um país não tem a ver exatamente com diversidade, especialmente porque encarnar pode significar representar e simbolizar. Kamala simboliza um perfil, mas representa o que simboliza? Seu estereótipo e suas origens indicam que ela possa e deva desfraldar a bandeira da diversidade, mas isso não garante que ela se veja ou atue como representante dos grupos que constituem suas origens. Pelas nossas bandas de cá ter um Presidente da República torneiro mecânico parece encarnar bem a diversidade, pois esse evento foi o avesso de tudo o que se encarnou como governo no Brasil. Pobres que saem da miséria e conseguem superar as barreiras que lhe são impostas por estereótipos de sucesso elitizado não encarnam a diversidade? Para muitas mulheres batalhadoras do Brasil, Kamala não simboliza diversidade; ela representa oportunidade, acessibilidade, superioridade. A cor da pele dela e o país de origem de suas famílias pouca importância têm diante das oportunidades franqueadas a esta mulher, e que são muito diversas das do Brasil da diversidade. Ao invés de podermos nos orgulhar da nossa riqueza multirracial, da nossa exuberância cultural, o que percebemos é que o diverso se estabelece entre uma minoria que se pensa branca e rica e uma massa de pobres que disputam entre si qual a pior peculiar diversidade, estabelecendo níveis hierárquicos entre a diversidade em miserabilidade: que exclui, oprime, violenta, mata. Dentre nossas várias diversidades, talvez um tipo não se identifique com Kamala Harris quando tudo apontaria para uma identificação: será que Kamala encarna a diversidade segundo o olhar das brasileiras negras que estão nos EUA fazendo faxina para juntar uma grana e voltar com o suficiente para montar um negócio e ajudar a família? Esta mulher migrante brasileira encarna a diversidade? Será que ela, ou uma indiana, ou uma jamaicana nas mesmas condições reconhecem e festejam a encarnação da diversidade pela Vice-Presidente Harris?

Minha indagação final neste texto escrito em indagações é: por que nos discursos atuais, “diversidade”, este valor vetor do século, foi sequestrado por alguns para alcançar posições estratégicas de poder? A história se repete: mais uma conquista é apropriada para seguir oprimindo, repetindo esquemas de violência e exclusão. E nosso refinamento histórico-cultural só nos levou a um absurdo maior: tentar padronizar a diversidade. Diversidade, um conceito que envolve respeito à integridade de qualquer um, tem se transformado em arma perversa de exclusão de muitos diversos, impondo-se como padronização de um tipo de diversidade, o que contradiz o próprio conceito de diversidade. Figuras caricatas são promovidas a bastiães de lugar de fala que podem tudo dizer, garantindo-se assim o monopólio de lugares de fala por pessoas incapazes de empatia, e que de forma oportunista- e muitas vezes agressiva- promovem qualquer coisa, menos a própria diversidade. Diversidade intolerante à diversidade alheia é padronização tirânica; é unidade, não pluralidade.

No lugar de fala que me foi franqueado como mulher num jornal intitulado MUNDO ELA, tomo assento nele para registrar minhas dúvidas sobre o que cremos ser diversidade e sua encarnação individual por algumas poucas pessoas que parecem crer trazerem uma estampa na cara: “eu sou o diverso”. E faço esse esforço correndo o risco de ser mal interpretada por escrever algo tão politicamente incorreto diante de um universo sócio-político que nos impõe se calar diante de afirmações que elegem Kamala Harris como a encarnação da diversidade. Meu radar pessoal, forjado na minha longa experiência transitando por circuitos ditos de defesa da diversidade, dispara em mim um alarme constante me avisando que não posso ousar falar de diversidade, algo que parece tender a seguir indefinível e que se transformou em mandamento bíblico, bordão dogmático incontestável e que gente como eu pode ser naturalmente castigada pela heresia de se arvorar a falar desse assunto, reduto de alguns. Ocorre que eu, ao contrário da Vice-Presidente dos EUA, encarno a não diversidade, uma padronização que me foi imposta e que hoje me impede abrir a boca para falar sobre as tantas diversidades, seja como pesquisadora, seja como cidadã, seja como mulher. Chega a ser risível estabelecer comparação entre uma professora brasileira e a mulher mais poderosa do mundo; e o paroxismo comparativo se escancara quando sou tratada como mulher que encarna o padrão e Kamala como mulher que encarna a diversidade. Quero compartilhar aqui com as diversas individualidades que nos leem a minha própria convicção de diversidade encarnada: uma mulher interiorana sem linhagem, filha de dona de casa e músico, ambos com não mais que o ensino fundamental, neta de carpinteiro e lavadeira analfabetos, a vida inteira estudante da rede pública de ensino e professora desta mesma rede. Este, sim, é o padrão que me define e que deveria permitir-me, de forma transgressora, ter estampado na minha cara um “eu sou diverso”. Ao contrário do comentário feito por Sandra Coutinho sobre Kamala, eu não só não encarno a diversidade de boca fechada, como também tenho sido calada ao tentar abrir a boca para falar sobre ela e as inúmeras formas de exclusão que têm sido impostas por gente que até simboliza, mas não representa em nada as muitas diversidades. Nada mais atentatório à diversidade que a imposição alheia do que seja em nós (ou não) a nossa própria diversidade.

Por Mariah Brochado
@mariahbrochado

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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