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Mas afinal, o que que a gente pode ser e fazer?

Tereza de Benguela

Tereza de Benguela | Foto: reprodução internet

No último domingo, dia 25 de julho, foi o Dia da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha e o Dia de Tereza de Benguela. Estas datas sempre me fizeram questionar e pensar muito sobre a pessoa que sou, o lugar que estou agora, todo o trajeto que me trouxe até aqui e o trajeto que ainda irei percorrer.

Relembrando meus textos anteriores que traziam alguns conceitos da Patrícia Hill Collins sobre imagens de controle e a importância da autodefinição, percebo o quanto a sociedade que estamos inseridas tem o potencial de nos oprimir e tornar nossa trajetória muito mais difícil do que poderia ser.

Somos hipersexualizadas, objetificadas, temos nossa inteligência questionada a todo momento e enfrentamos diversos julgamentos sobre ser ou não mães. Em “Mulheres, Raça e Classe”, Angela Davis dedica um capítulo para falar sobre racismo, controle de natalidade e direitos reprodutivos.

Davis destaca que no século XIX feministas foram chamadas de radicais ao reivindicarem o direito ao controle de natalidade, mas que o acesso a diferentes formas de contraceptivos e o direito individual de escolher ou não ter filhos é um pré-requisito para a emancipação das mulheres.

É importante ressaltar que esse movimento não foi marcado pela união de diferentes grupos de mulheres e que mulheres da classe trabalhadora tiveram (e ainda têm) muita dificuldade de acesso a esses métodos contraceptivos.

As diferenças de classe ficam cada vez mais evidentes quando pensamos que os principais motivos para o controle de natalidade levantados pelas feministas da época era a possibilidade da construção da carreira profissional e educação superior. Objetivos inalcançáveis para mulheres pobres, independente do controle de natalidade.

Já as questões raciais aparecem de forma mais nítida no final do século XIX, quando a taxa de natalidade de crianças brancas nos EUA caiu consideravelmente. A queda levou o presidente Theodore Roosevelt a concluir seu discurso no Lincoln Day de 1905 com a declaração de que “a pureza de raça deve ser mantida” e a comparar, em 1906, a diminuição da taxa com “suicídio de raça”.

Já em 1919, o eugenismo marcou o controle de natalidade, quando Margaret Sanger publicou um artigo no jornal da American Birth Control League em que definia que o controle de natalidade era sobre “mais crianças para os aptos, menos para os inaptos”. O discurso estava em concordância com o que a Sociedade Eugenista Estadunidense pregava e conseguiu concretizar, já que em 1932, pelo menos 26 estados haviam aprovado leis de esterilização compulsória e milhares de pessoas “inaptas” já haviam sido impedidas cirurgicamente de se reproduzirem. Entre as mulheres consideradas inaptas estavam negras, indígenas e latinas.

Tudo isso me leva a questionar: afinal, quem pode escolher ser ou não ser mãe?

Em “Racismo e sexismo na cultura brasileira”, Lélia González destaca como mulheres negras são extremamente objetificadas e como ao tratarmos alguém como objeto tiramos toda a subjetividade humana que há nele.

Lélia mostra como o mesmo sujeito, a mulher negra, é vista como a doméstica ou como a mulata do carnaval. Além de destacar a naturalidade que é dada ao racismo. De alguma maneira é natural que essas pessoas sejam pobres e vivam na miséria. É natural para o grupo dominante que essas pessoas sejam perseguidas pela polícia, já que obviamente são pobres porque não gostam de trabalhar.

E assim, para o mesmo grupo dominante, é natural que os filhos dessas pessoas também sejam pivetes ou trombadinhas, se forem homens, e cozinheiras, faxineiras ou prostitutas, se forem mulheres.

Em “Pensamento feminista negro”, Patricia Hill Collins fala sobre as imagens de controle que colocam mulheres negras dentro de diferentes estereótipos ao longo da história e sobre a importância de se autodefinir para resistir a elas. No entanto, a autodefinição vem pela busca da própria voz e da descoberta de espaços seguros para exercê-la. Coisas que se tornam cada vez mais difíceis quando as formas de opressão se tornam cada vez mais sofisticadas e quando cada vez mais pessoas vivem em situação de pobreza e insegurança alimentar.

O que me leva a questionar: afinal, quem realmente pode ser o que se é?

Existem muitos outros questionamentos que podem ser feitos sobre o que mulheres negras e pobres podem realmente escolher fazer ou ser. Crescemos e buscamos descobrir quem podemos ser e o que podemos fazer cercadas pelo o que esperam que sejamos e por todas as limitações impostas. Crescemos buscando questionar todas essas limitações. Crescemos buscando diariamente sarar feridas que são nossas, mas também feridas que vieram de nossas mães e avós. Crescemos.

Tag: Dia da Mulher Negra

Por Luiza Rodrigues
@luizadpr

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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