Mundo Ela

Mundo Ela

mundo ela

Foto de Wesley Carvalho no Pexels

A inauguração de um canal de comunicação virtual de mulheres, sobre mulheres e para mulheres é um espaço que merece aplauso pelo propósito a que se destina: o de criar laços em torno da feminilidade entendida como um estar no mundo. E não à toa nos chamamos MUNDO ELA.

Certo é que o mundo humano é de todos. Mas idealizado, articulado e arquitetado para ELA traz em si a missão de ser um mundo diverso dentro do mundo de todos, e este, infelizmente, há séculos vem sendo forjado como MUNDO ELE. E afirmamos isso sem qualquer intenção de fazer aqui proselitismo feminista.

Desde o início do movimento feminista, cujas primeiras manifestações datam do século XVIII, o propósito maior daquelas que desbravaram novos caminhos de compreensão do feminino na história da humanidade era o de abrir espaço num mundo DELES para constituir um mundo também DELAS, e que nele coubesse um universo empreitadas e valores característicos do “elas”. O propósito desse texto não é retomar as bases da discussão feminista, suas teorias e evolução (ondas do feminismo), o que será apresentado em outro momento aqui no site. Pretendemos agora apenas compartilhar algumas reflexões sobre o que significa afirmar um MUNDO ELA.

Sem querer dicionarizar questão tão cara a nós mulheres, começamos por buscar definições simples de “mundo” e de “ela”, de trás para frente, já que primeiro devemos pensar no sujeito que habita esse mundo: ELA.

Foto de Isadora Tricerri no Pexels

Do latim illa, ELA ocupa a posição de pronome dentre as categorias gramaticais e é definido no Dicionário On line de Português como “pessoa ou coisa de quem se fala ou se escreve”. Curiosamente, no mesmo dicionário, consta na sequência uma outra referência: “forma feminina do pronome ele” (Disponível em: https://www.dicio.com.br/ela/).

Partindo dessa definição por equiparação de “ela”, pensamos em indicar a definição de mundo sobre a qual pretendemos refletir, pois que desde a narrativa bíblica sobre o Éden, palco original dos humanos, o mundo foi pensado para o protagonista “homem”, tendo a mulher surgido de uma parte do corpo dele. O sujeito “ela” desde sempre foi apresentado por comparação ao sujeito “ele”. O pronome “ele” no dicionário citado não está referido como “forma masculina do pronome ela”. Ao contrário, na definição de “ele” consta (além do mesmo “pessoa ou coisa de quem se fala e escreve” – o que definitivamente não caracteriza nem “ele” e nem “ela”) o seguinte: “Substantivo masculino [Eufemismo]: Nomeação atribuída ao diabo (letra maiúscula)” (https://www.dicio.com.br/ele/).

No clássico Dicionário Aurélio encontramos: “ela. Pron. pess. fem. da 3ª pessoa. Ela por ela. A escolher, entre duas coisas iguais. Elas por elas. Bras. Pop. Na mesma moeda: Se me desrespeitar terá o troco: é elas por elas. Agora é que são elas. Aqui é que está a dificuldade, o problema, o busílis. Aí é que são elas. Aí é que está a dificuldade”. (Dicionário Aurélio básico da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, p. 236). E o “ele” está definido, no mesmo dicionário, como pronome pessoal que designa a 3ª pessoa do masculino singular, e também usado com preposições: “mal com ele, pior sem ele”. O “ele” é ainda referido ao diabo igualmenteno Dicionário Aurélio (loc. cit).

Chega a ser cômico comparar as menções a “ele” e a “ela” em simples referências de dicionário e constatar como o pronome ele tem muito mais presença persuasiva que o nosso singelo ela, remetendo-se o “ele” até mesmo a um suposto arque-criador do mal, anjo decaído (o diabo) que se insurge contra o criador do bem num mundo divino (Ele como Deus) e que também é masculino: não existe uma Deusa criadora de tudo. O “ela” é empregado até mesmo como sinônimo de dificuldade, problema, confusão (aí é que são elas!); o “ele” é diabólico e divino.

Percebemos como é grandiosa a posição do pronome masculino e o quão singela é a posição do pronome feminino. E é de singeleza que queremos aqui falar como um mundo de elas. Porque o singelo é o primordial.

O mundo feminino é marcado pelo passo elementar na edificação do mundo: o da singela criação. Mulheres são fonte da construção humana. A espécie categorizada como homo sapiens (no plural homines sapientes) define-se por sua racionalidade, sensibilidade, empatia, curiosidade, determinação, um tipo de ser que ousa sair da zona confortável que é o da natureza, regido segundo causas que controlam sua existência biológica, para se lançar numa busca incessante: a de construir um lugar melhor, totalmente diverso, único, complexo, repleto de originalidades, o qual convencionamos nomear mundo cultural.

Sapientes, dotados de capacidade cognitiva em potência para a sapiência infinita, são trazidos ao mundo da natureza e por uma femina, em latim “mulher”. São femina que geram homines, e ambos formam o mundo cultural, cuja referência significativa inicial é cultura como o cultivar a terra e tirar dela seus frutos. O fruto cultivado no ventre sagrado da mulher é pura bondade na forma de doação singela de si para que toda a humanidade venha à existência, ainda que nunca roguemos a uma Deusa Toda Poderosa, criadora do céu e da terra. E a humanidade é tudo o que reconhecemos como o nosso mundo. Se há espécie mais evoluída, com capacidade de pensar irrestrita e amar sem condicionantes, e seguir cultivando o seu mundo, não a conhecemos. É por isso que o MUNDO ELA é o mundo todo.

É “ela” que forma e transforma; é “ela” que destina seu próprio corpo para que estejamos aqui; é “ela” que alimenta a todos quando saímos de seu ventre e buscamos o leite em seu seio; é “ela” que nos levanta do chão e nos ensina a dar passos como bípedes que trazem no alto do corpo, bem longe do chão, o órgão responsável por todas as faculdades e habilidades que nos tornam humanos; é “ela” que está sempre nos aguardando voltar como se fosse para a nossa morada primordial, o seu próprio ventre, e é assim que “ela” vive por nós: acolhendo o fruto do seu ventre natural no eterno ventre maternal, que é sempre cuidado e fortaleza, formas das quais se traveste a bondade em sua maneira mais sublime, como amor d’ela.

foto: Foto de lucas mendes no Pexels

Por tudo isso, referir-se a um MUNDO ELA chega a ser um delicado pleonasmo. O mundo é feminino, pois é do feminino que se arquiteta qualquer forma de mundo. Sendo o mundo algo “ela” sempre, cabe aqui um registro na forma de provocativa indagação: onde e o quanto desse mundo, necessariamente formado por “elas”, será de fato um mundo d’ELAS? Tudo o que move as ações que reconhecem um ELA como a base de um mundo genuinamente humano e entendido como o único lugar possível à existência humana pode ser resumido pela busca de um espaço para todas ELAS no nosso mundo, o único habitado e construído pela humanidade a muitas mãos e ventres.

Eis a razão porque esta ação de criação do site MUNDO ELA traz a dignidade e a inteireza de ser a abertura de um espaço para um MUNDO DELAS. O que cabe a nós, vários “elas”, a partir da construção de mais esse lugar virtual de encontro “de elas”, é gestar esse espaço, levando-o a crescer, amadurecer e se expandir, gerando e construindo, formando e encaminhando, ensinando e acolhendo, inspiradas no ventre materno, arquitetando um mundo que seja verdadeiramente o nosso mundo D’ELAS.

COLUNISTA MARIAH BROCHADO
@mariahbrochado

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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