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O narcisismo nos tempos do vírus

Foto de cottonbro no Pexels

Narcisismo é essencialmente o reconhecimento da importância do outro, seu corpo, sua alma, seus olhares, e esta tem sido a história do olhar narcísico da humanidade

Byung-Chul Han é um filósofo sul-coreano com formação inicial em metalurgia e que na década de 80 mudou-se para a Alemanha aos 26 anos, sem qualquer perspectiva de trabalho e sem saber uma palavra em alemão.

Tinha uma única certeza: ficar em Seul não era seu destino e fugir, inclusive da própria família, era o que precisava fazer. Anos depois se doutorou pela Universidade de Freiburg e tornou-se Professor da Universidade de Berlim.

As opiniões de alguém com essa história de vida já seriam interessantes, mas, para além das suas contingências particulares, ele é reconhecidamente uma das mentes mais inquietas e brilhantes desse século, com um número considerável de publicações, aforismas e críticas devastadoras às formas de vida ocidentais.

Ele publicou no ano passado o livro “O desaparecimento dos rituais: uma topologia do presente”, no qual se propõe a refletir sobre a aceleração do novo estilo de vida on line e a decadência dos rituais humanos, simbologias que estão se perdendo, formas fundamentais de se manifestar, de interagir, de estar no mundo, e que se constituíram desde sempre através da corporeidade.

Uma reflexão interessante de Han é a díade que, segundo ele, tem sido um dramático esteio do nosso presente: o efeito decorporizador da vida digital e sua videodismorfobia (precedida por um vídeonarcisismo), agravados nos tempos de vírus.

Segundo o filósofo, a digitalização da vida traz consigo a consequência de decorporizar as relações, enfraquecendo os laços comunitários tal como experimentamos até aqui e que sempre aconteceram por gestos físicos, abraços trocados, olhares cruzados, circunscrições reais que situam os indivíduos e fixam suas experiências.

O advento Covid-19 acabou com estas possibilidades de experimentação do social através do encontro de corpos.

Ir ao cinema, jantar com amigos, passar no bar para assistir à transmissão do jogo de futebol tornaram-se práticas inapropriadas: estar a salvo é manter distância do outro, que se tornou, independentemente de todas as suas virtudes e das afeições trocadas, um mero portador potencial do vírus.

Complementarmente a este fenômeno, nunca nos vimos tanto nas telas, nos infinitos vídeos e lives, como durante a pandemia. Tornamo-nos vídeonarcisistas escravos das redes, verdadeiros vídeozumbis, como chama Han.

E ele destaca outro fato curioso: ao mesmo tempo em que nos regozijávamos com nossa imagem na tela, começamos a estranhá-la e notar nela uma série de imperfeições que passavam despercebidas nas experiências reais do dia-a-dia corpóreo, no qual não temos um espelho dependurado na nossa frente para refletir cada expressão facial manifesta em cada experiência vivida.

Agora está tudo filmado, registrado, arquivado: podemos conferir um sorriso mil vezes, e detectar as manchas de vinho, e se aborrecer por não ter feito o clareamento dental programado. Os reels, stories, tiktoks, boomerangs são nossos espelhos companheiros de toda hora.

E nessa vibe de exposição compulsiva e autoavaliação implacável, é fatal a detecção de defeitos que pareciam não tão perceptíveis naqueles dias que antecederam o ano de 2020, em que saíamos de casa para ganhar a rua, o trabalho, as feiras, as festas, o mundo, os outros. Tudo sem espelho.

A vídeozumbilândia nos aprisionou, nos consumiu e tirou nossa paz na forma do adoecimento por videodismorfobia, reflexo desse constante “espelho digital”. Han define esta patologia como a excessiva atenção a defeitos corporais naturais, como rugas, manchas na pele, cabelos brancos, flacidez, inchaços, olheiras etc. e que nos passavam despercebidos nas vivências reais, fora do vídeo.

Tornamo-nos narcisos masoquistas impiedosos e intolerantes com nossa aparência, desde sempre constituída de corporeidade com suas naturais deficiências.

E a patologia precisa de tratamento: dá para acreditar que nunca houve tanta procura por cirurgia plástica quanto no ano de 2020? Esta informação é também registrada pelo filósofo, um dado que parece não condizente com o momento em que a saúde está sob vulnerabilidade ao limite. Somos levados a indagar: como há espaço para tão patética vaidade justamente neste contexto?

Pior: vaidade com uma aparência física que sequer se mostra de fato a alguém, já que corpos não se encontram, não se tocam, não se apreciam.

Retocamos a aparência para a nossa própria apreciação imagética, e Byung-Chul Han é bastante pessimista ao avaliar nosso presente e atribuir ao vírus um papel pedagógico.

Segundo sua aposta, o SARS-CoV-2 confirmou suas predições sobre as novas amarras da existência humana neste século, e desnudou radicalmente sua principal característica: no contexto neoliberal, tornamo-nos empresas individuais solitárias, cuja falência é culpa exclusiva de cada um, e nosso cansaço na busca incessante por êxitos se agudizou durante a crise trazida pelo vírus.

Há tempos que os indivíduos transmutaram-se em escravos de si mesmos, buscando perfeição com o esgotamento no trabalho, sem nenhum sentido na vida senão a convicção da necessidade do sucesso.

Han menciona, ainda, a expressão Corona blues, para se referir ao estado de depressão profunda no qual a humanidade tem mergulhado durante o isolamento pandêmico e do qual não sabemos como sair.

Certamente o quadro é angustiante e as sensíveis ponderações de Byung-Chul Han são um manancial para a reflexão e o autoconhecimento, mas preciso registrar algumas discordâncias, tentando aqui uma visão mais amena do drama que todos estamos vivendo nesses tempos de vírus, e que já é sofrido demais para atrair sobre si mais maus augúrios.

Talvez mereçamos uma dose otimista de tolerância e generosa cautela nesta análise.

O ser humano é totalizado por uma incógnita junção de contradições, e, na nossa condição de humanidade, cabe aparentes descompassos como não poder estar com o outro e dedicar-se ainda mais a aprimorar esteticamente um rosto que não estará literalmente cara-a-cara com ninguém.

Num contexto de crise secular, nenhum de nós tinha guardado num baú secreto um manual de sobrevivência e resistência psíquica aos perigos e efeitos da pandemia.

Obviamente que, ao contrário, a abertura de caminhos é improvisada, alguns deles chegam a ser infantis, e nós simplesmente seguimos, temos tentado superar o caos a cada momento e de um jeito que cada um vai descobrindo, apurando, moldando.

Na contramão desse processo, tentar pelas lupas da filosofia catalogar criticamente estados psíquicos e atitudes equivale a tentar mapear em definitivo as mutações virais. Evidentemente que a comunicação virtual na estrutura on line é parte essencial no processo de isolamento, um amenizador de dramas diversos.

O que seria de nós se a realidade fosse a mesma dos que em 1918 enfrentaram o Influenza? Imagina se desta vez não pudéssemos nos virtualizar (e viralizar-sem trocadilho- nossos videozinhos sem graça) para sobreviver com um mínimo de acesso ao mundo, um mínimo de salubridade psíquica?

Seria exigível de nós que não buscássemos melhoras estéticas, já que a vida real, experimentada na comunidade de corpos que se encontram e se relacionam, tornou-se inacessível?

Será que o excessivo desejo repentino de se alienar do próprio corpo real, com suas imperfeições, emoldurando-o com intervenções cirúrgicas, não seria uma necessidade de satisfação estética do espírito, já que só é possível retratar este corpo na tela, alijado que está do mundo tangível?

foto: pexels

Talvez o autoencantamento com o corpo forjado (artificializado, esculpido, fotochopado, memizado, trolizado, botizado etc.) seja ao menos um alívio à dor da solidão e do medo.

Afinal, são só corpos; se o propósito é amainar o espírito, que assim o seja com caras mais bonitas e aprazíveis de se ver, de se apreciar, de se amar. E isso faz todo o sentido.

Como também faz sentido, num momento de perda de vidas e ausência de sinalização de rumos para a retomada da normalidade, tentar se apegar a formas alternativas de prazer, a pequenas alegrias.

Que bom que imagens narcísicas lançadas na rede mundial de computadores seja um antídoto alienante contra o sofrimento. Antes um alienado aliviado que um hiperconsciente suicida.

Desde que inventamos um Deus a nossa imagem e semelhança (sim, afirmar que Deus criou o homem a sua imagem e semelhança é, antes de tudo, eleger uma imagem divina talhada na mente humana segundo seus próprios padrões humanos), o narcisismo é apenas uma forma de adoração de Deus, que habita os nossos corpos na forma de alma.

Fizemos questão de publicizar, por intermédio das escrituras sagradas, que fomos criados à imagem e semelhança de um Deus.

Amamo-nos, a começar, por sermos criatura e imagem divina. Deixemos os créditos para Byung-Chul Han pela crítica aos excessos narcísicos no período da pandemia, mas não estarão eles sendo proporcionais ao tamanho da crise enfrentada? Será que em alguma época foi diferente, a exceção das proporções? Na verdade, sempre nos apaixonamos por nossa imagem de alguma forma, refletida em nossos feitos e conquistas.

A diferença do momento é que inventamos um ambiente virtual que facilita os formatos exibitórios e exortatórios do autoencantamento narcísico, e que, em certa medida, democratiza o acesso ao autoamor: quase todos têm seu minuto de glória nas redes. Mais: se ninguém visualizou o vídeo postado, e daí? O próprio sujeito se apreciar é um prazer que começa e acaba em si: se ver e poder se deleitar com a própria imagem, admirar-se, aplaudir-se, é, no fundo, a oportunidade de ser autônomo e pleno, liberto de qualquer olhar concreto ou julgamento específico, insubmisso a qualquer avaliação, repulsa ou exclusão reais.

Num momento em que o sofrimento psíquico pelo potencial contágio tem sido uma constante trazida pelo vírus que nos ronda há mais de um ano, sou obrigada a discordar de algumas conclusões desse renomado filósofo: o narcisismo nos salva; porque nos apaixonar por nós mesmos nunca foi tão vital.

E cada um se apaixona à sua maneira, segundo seus códigos de vida, seu nível de esclarecimento e acesso, seus desejos.

Há gente que se encantou pela própria imagem ao ponto de buscar intervenções cirúrgicas para aperfeiçoá-la e poder se amar mais. Há gente que se encantou com a possibilidade de observar pessoas que se narcisizaram no período da pandemia e escrever sobre elas.

foto: pexels

O nosso filósofo se narcisizou escrevendo textos para denunciar o processo narcisizante por que tem passado a humanidade nos tempos do vírus, e se esmera, em seu prazer igualmente narcísico, para dissecar nossos comportamentos, conceituando subjetividades, categorizando atitudes, julgando decisões individuais alheias, firmando convicções sobre corpos e almas com quem nunca esteve e jamais estará.

Esta outra categoria de narcisos são os que se encantam com suas próprias ilações, suas narrativas de vida, suas elucubrações mentais, suas eurecas, seus insights.

Existe hierarquia narcisística? Amar os próprios olhos e lábios é tão diverso assim de amar os próprios textos publicados em jornal? Ou por acaso escrevemos um livro inteiro por desdém das próprias ideias, desinteresse pelos temas, desapego das próprias percepções, desprazer da mente fervilhando, desamor pelas palavras? Sinto que não.

Escrever exige tempo mirabolando metáforas comunicacionais sutis, cultivando perspectivas convincentes, amarrando raciocínios, fiando delicadamente teias argumentativas, tecendo detidamente o leitmotiv da trama, que deve caminhar para um fim friamente calculado de clímax textual retumbante, sem rupturas, nem contradições.

O texto tem de se revelar ao seu escritor como belo; e se ele nos revela beleza nas entranhas de seus parágrafos, nos apaixonamos por ele e desejamos imediatamente publicá-lo.

É um apaixonar-se por sua obra, pelo que é fruto do seu eu. Há algo mais narcísico que isso? Qual a diferença mesmo entre botar um artigo “na roda” para ser lido ou uma cara maquiada e penteada na tela para ser vista? Publicar um livro criticando o narcisismo imagético alheio é, sim, um gesto essencialmente narcísico.

Quem não se deslumbrou, não publicou; guardou bem escondido para si. Do mesmo jeito acontece com os que se encantam com sua imagem e a publicizam por considerá-la bela.

Belo é o desejo de compartilhar-se com o outro, em imagens, textos ou corpos. Por fim, uma palavrinha sobre a beleza.

foto: pexels

Belo só é belo se visto pelo olhar do outro. Não há beleza ensimesmada; beleza é sempre um postular da outridade.

Quando nos vemos belos, é porque estamos nos esforçando para nos olhar como se fôssemos outro, nos apreciando de fora, seja nosso corpo, seja nossa alma.

Humano é sempre si e o outro. O espelho de Narciso reflete sua imagem mediada pelas imagens todas que poderiam para Narciso refletir-se.

Narciso não é belo preso dentro do seu espelho; ele é liberto pelo espelho que o revela face a infinitos belos, possibilitando-o se sentir o mais belo dos belos.

Estas e outras formas de narcisismo é essencialmente o reconhecimento da importância do outro, seu corpo, sua alma, seus olhares, e esta tem sido a história do olhar narcísico da humanidade, estejamos nós conscientes dele ou não, antes e depois da vida digital, antes e depois da pandemia, antes e depois da Grécia, ou do Éden. 

Por Mariah Brochado
@mariahbrochado

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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