Mundo Ela

Quadros

quadros Yara Tupynambá

Quadro de Yara Tupynambá | Foto: Mariah Brochado

Quadros não surgem de pinceladas de tinta lançadas aleatoriamente na tela. Minha ignorância sobre arte me permitia supor que artistas miravam a tela nua e ali depositavam tons diversos que expressavam sua inspiração.

Tive a sorte de ter essa ideia ingênua desfeita por uma amiga artista plástica, quem um dia me explicou como idealizava suas telas, como articulava as formas dos desenhos e as moldava com a textura das tintas, como misturava tonalidades para trazer realidade às figuras que povoavam sua mente.

Ela me esclareceu que antes de pintar propriamente a tela era preciso desenhar a lápis cada item imaginado, o que é feito em imensos rascunhos, proporcionais ao tamanho do que serão os quadros.

Ela apontou para uma tela e me explicou em detalhes que aquele rosto de mulher que começava a ganhar vida ali tinha que ter tantos centímetros, ocupar tanto de espaço no conjunto de imagens, ficar a tal distância das bordas, e foi me apresentando rabiscos e mais rabiscos misturados com cálculos.

Pensei que o pincel é que definia aqueles rostos e paisagens lindos; não réguas e compassos.

Mas eram instrumentos insossos em papeis baratos que faziam aquilo tudo nascer. Foi um pouco decepcionante para mim, quebrou a magia que era, para minha imatura compreensão, a arte da pintura.

Um imenso equívoco que só fazia sentido na minha mente desinstruída. Aí me toquei que na existência humana nada, nada mesmo, acontece por magia; muito menos pintura de quadros.

Numa das visitas ao ateliê dessa amiga, ela resolveu ensinar a nossas filhas pré-adolescentes como funcionava a tarefa de pintar e que todo gênio de verdade é mais generosidade que conhecimento; é mais doação de si do que técnica aplicada.

Ela começou misturando as tintas e as depositando em traçados copiados dos rascunhos jogados no chão. As meninas não se encantaram pelo dificultoso caminho que a artista apresentava para chegar a seu quadro. Só eu e meu marido, meio constrangidos com o descaso das duas, prestávamos atenção naquela aula que seria objeto de sumo desejo para muitos profissionais da arte.

Como eu, as meninas pensavam que era só jogar tinta na tela.

Tão logo descobriram a dificuldade toda, ficaram dispersas, desinteressadas por aquela confusão e sujeira, e começaram a se distrair com os painéis prontos, lindos, enormes, que estavam espalhados pelo ateliê (“imagina entender de pintura de quadro justamente naquele dia!”).

Duas pré-adolescentes tinham prazeres fáceis para experimentar, não arte complexa para compreender: apreciar o que já estava pronto era prazerosamente fácil.

Fiquei pensando que eu era tão pré-adolescente quanto, ao supor que pintura de quadro era algo que brotava da inspiração e do deslizar de pincel na tela.

Como me comportei por tanto tempo como pré-adolescente assim, sem nunca ter percebido [sequer desconfiado] o imenso esforço daquela mulher pintora para dar à luz sua arte em quadros?

Vejo uma pré-adolescência contagiante nas mulheres que seguem outras mulheres nas redes sociais, desinteressadas pelos rascunhos da vida, sempre iludidas com os quadros virtuais que veem pregados no Instagram.

Iludidas ingênuas como eu era quanto ao trabalho de artistas ao fazerem surgir seus quadros. Nesta moldura virtual da vida que se tornaram as redes sociais, vejo dois grupos peculiares de mulheres.

Vejo um grupo de moças lindas, sempre maquiadas, penteadas, vestidas com roupas caras, joias mais caras ainda, bolsas que custam meu salário mensal, sapatos que custam meio salário meu, lingeries e cosméticos que custam meu guarda-roupa inteiro, botas divinas- amo botas!- das que nem imagino o valor, óculos importados que jamais terei, carros importados que jamais, jamais verei de perto, banheiras de espuma que cobiço mais que tudo junto, rosas das que nunca recebi, taças de espumante que tomo vez ou outra- por alguns posso pagar.

Tudo é sempre colorido, iluminado, magnético, prazeroso de se ver e de se imaginar tendo.

Foto: Mariah Brochado

Vejo um outro grupo, muito maior, mulheres como eu, na proporção de uma daquelas para cinquenta mil destas, cobiçando toda essa beleza, toda essa perfeição, tantos tons de vida, infinitamente mais vivos do que os de nossas ordinárias vidas comuns. Tanta perfeição, tanta beleza, perfeição e beleza demais para serem projetadas nos rascunhos da vida nossos de cada dia.

As cinquenta mil olham os quadros virtuais que brotam ali, tal como eu olhava as pinturas antes da aula que um dia tive no ateliê, e creem ser magia, belezas surgidas de pinceladas soltas nas telas, retratos de Monalisas reais, Giocondas radiantes, “como nós todas podemos ser!”- dizem. SÓ QUE NÃO.

Não, porque um sim nesse caso não é magia, como nunca é.

Exige mais que tinta jogada sobre a tela; exige régua, compasso, contagem de centímetros e riscos de lápis apagados por borracha, refeitos e de novo apagados; quase esgarçando o papel onde rabiscos sujos de borrões, feios de se ver, começam a ganhar sentido, para, só então, saltar dali para as telas. Nestas, tornam-se borboletas coloridas, iluminadas, magnéticas, prazerosas de se ver e de se imaginar sendo, abandonando seus casulos de rabisco imperfeitos.

Devemos saber que toda tela teve que ser antes um papel rabiscado. Não existe beleza surgida na tela sem minuciosos esquadrinhamentos em puro rabisco a lápis e restos de borracha desgastada, trabalho árduo e sem a menor possibilidade de resultado imediato que se possa chamar belo.

No quesito beleza feminina, estão sempre tentando nos vender fórmulas fáceis, sem qualquer necessidade de talento ou dedicação; sem rascunho que preceda à tela.

E essa enganação deve nos servir, ao menos- já que engano nunca é algo em si bom-, como inspiração para, mulheres crescidas que somos, compreendermos o que desejamos registrar na nossa existência: como se ela fosse uma tela nua esperando pinceladas.

Vai sair na pintura o que foi idealizado, sim; mas terá que ser medido, comparado, calculado, rabiscado, apagado, refeito quantas vezes forem necessárias no rascunho.

A vida não surge na tela sem o rascunho de tela. Corpos perfeitos não surgem de pinturas sem rabiscos. É necessário riscar, e riscar, e riscar, até conseguir a forma desejada. Mas ao contrário da sinceridade da minha amiga pintora, muitas moças daquele primeiro grupo, chamadas influencers, nos dizem que suas telas são repletas de tintas sem rascunho: não passam fome disciplinadamente todo santo dia, por exemplo, para que o quadro esteja sempre do mesmo tamanho, não é? Falo de fome quando falo de corpos femininos hoje porque esse é o rabisco mais difícil para compor nossas telas.

Parece até que comer deixou de ser rabisco e passou a ser régua. E precisamos nos tocar disso.

A feminilidade da nossa época poderá ser apreciada em corpos largos, curvilíneos, como os do tempo da Monalisa?

Ou não queremos corpulências e sobras, nada de tinta se espalhando à vontade pela tela? Como rascunhos são limitadores de telas, traçados finos são a base para pinturas de corpos estreitos; do mesmo modo que delineados grossos permitem transbordamentos em corpos largos.

Os corpos humanos ou estão em fase de crescimento e a expansão do organismo consome toda a energia ofertada, ou superam esta fase e passam a acumular energia para viver sem privações.

Esta é a regra que se impõe aos rascunhos da natureza física em nós. Há exceções, como tudo na natureza; mas se der tudo certo segundo o desenrolar da vida natural, corpos sempre terão molduras contendo o que se coloca para dentro deles, do mesmo modo que temos nos quadros o acúmulo de tinta.

É uma conta simples. No entanto, as influencers mais exuberantes quase sempre nos apresentam quadros que parecem ter nascido de pinceladas soltas e tinta jogada nas telas. Elas estão sempre impecáveis nas fotos, nos ângulos, com cenários irretocáveis. Nunca tem uma mecha de cabelo desgrenhado (santo babyliss!), nunca tem uma unha com esmalte gasto pelos afazeres do dia-a-dia, nunca se vê uma olheira de cansaço, jamais uma dobra de barriga despencada sobre uma braguilha, nem batom meio borrado, nem rímel manchando a pálpebra. Não se testemunha sequer um traçado de rabiscos verdadeiros, que expressem existências verdadeiras e não fantasias que nunca serão quadros reais. Fico imaginando como devem ser os rascunhos, e admiro muito as que assumem os seus.

E quando falo desses rascunhos, não me refiro às maravilhas computacionais, que afinam abdomens, torneiam pernas, levantam nádegas e seios, esticam a pele, colorem cabelos. Isso equivale a gravurasque imitam quadros originais: saem em quantidade grande e com numeração irrepetível, mas são só cópias artificialmente impressas, sem grande valor.

Eu mesma tenho gravuras lindas da minha amiga pintora; mas um quadro dela, original, é outra coisa. Photoshops são gravuras; falemos apenas de quadros originais.

Estes têm valor de verdade. E têm porque são únicos; porque a forma como acontecem é uma só, não se repete. Não dá para tratar nossos corpos como gravuras.

São telas com traçados em rabiscos e apagamentos exclusivos. Se queremos que nossa tela expresse linhas longilíneas, o rascunho será trabalhado com traçados verticalizados, a tinta será distribuída entre colunas estreitas, sem poder desviar nada do que foi projetado no rascunho; aqui a tinta é a continha certa; nada excede, nada mancha, nada ultrapassa.

Ao contrário, se queremos deixar o pincel deslizar solto, o traçado das colunas não é tão rígido, camadas horizontais são permitidas, facilitando a conformação das imagens entre os amplos limites; a tinta é espalhada com fartura, dá para formar dégradés enormes em cada tom sem economia nas pinceladas. Uma pincelada cheia de tinta é mais prazerosa que o deslizar contido do pincel com pouca tinta? Depende do quadro que se deseja pintar.

A propósito de quadros e corpos, eu gostaria de deixar aqui uma dica, sem ser influencer e muito menos pintora; sem qualquer dom para a pintura e qualquer recurso para ostentar magias luxuosas para fazer vista a seguidoras (que, de fato, não tenho).

Quero usar de outro maneirismo de influenciadores digitais: a tal dica que fica. A que fica para mim mesma- um pressentimento de mulher madura sem direito a equívocos de pré-adolescência- e que quero deixar para as mulheres que leem o MUNDO ELA é: o prazer na construção do quadro será sempre uma proporção de dedicação à tela e ao rascunho; e o prazer da pintura acaba sendo mesmo o resultado final na composição do quadro, ainda que o rascunho tenha sido desgastado demais.

Não tentemos fingir que nossas pinceladas na tela possam trair nossos traçados no rascunho. Assim o quadro não nasce. Se o nosso desejo de quadro não cabe num determinado tipo de tela, não percamos tempo com um rascunho que não será padrão para ela. E não sigamos sofrendo com rascunhos que não comporão tela para nosso quadro. O que vive como projeto concluído é sempre o quadro.

Não precisamos viver de rascunhos alheios que não se prestam a ser nossas telas. Cada uma de nós é um valioso quadro único, valioso porque único. Não podemos nos sujeitar a ser arremedos de rascunhos alheios em telas próprias, e muito menos gravuras de quadros que não sejam idealizados, rascunhados e pintados exclusivamente por nós.

Foto: Mariah Brochado

Ps.: dedico este texto a YARA TUPYNAMBÁ, artista mineira que nos orgulha, mulher merecedora de toda a nossa admiração, mulher-pintora que tem nosso respeito e gratidão.

Por Mariah Brochado
@mariahbrochado

Leia também:

Você tem medo de viajar de avião?

Preparação da pele X Skincare. Você sabe a diferença?

Porque fazer seu Mapa Astral



** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

Categorias:
Últimas
Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments